Dactilografia
Traço,
sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo
o projeto, aqui isolado,
Remoto
até de quem eu sou.
Ao
lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O
tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que
náusea da vida!
Que
abjeção esta regularidade!
Outrora,
quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações,
talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora,
quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram
grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram
grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora.
Ao
lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O
tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos
todos duas vidas:
A
verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E
que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A
falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que
é a prática, a útil,
Aquela
em que acabam por nos meter num caixão.
Na
outra não há caixões, nem mortes,
Há
só ilustrações de infância:
Grandes
livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes
páginas de cores para recordar mais tarde.
Na
outra somos nós,
Na
outra vivemos;
Nesta
morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste
momento, pela náusea, vivo na outra ...
Mas
ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue
a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Álvaro
de Campos, in Poemas
Bem-vindos à Esquina do Desassossego, recebo-vos com um dos meus poemas favoritos, da autoria de um dos heterónimos de Fernando Pessoa.
Que vos enriqueça o fim-de-semana e o espírito!

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